top of page

Postagens por data:

Tolkien e a Linguagem dos Mitos: Muito Além da Falsidade

  • Foto do escritor: Ivo Fernando da Costa
    Ivo Fernando da Costa
  • 16 de abr. de 2021
  • 4 min de leitura

Atualizado: 25 de jan.

A linguagem simbólica como caminho para compreender verdades eternas


Certa vez, enquanto almoçava na universidade, chamou-me a atenção uma conversa na mesa ao lado. O tema era religião. Um dos estudantes argumentava que todas as religiões se reduzem a mitos e que mitos são sinônimo de falsidade ou mentira. Para esse estudante, a única linguagem capaz de revelar a verdade seria a científica ou factual.


Essa visão reflete uma mentalidade cientificista, que já discuti em outro momento, e que se refuta a si mesma. Afinal, existem outras linguagens que também nos dão acesso à verdade, e entre elas destaca-se a simbólica.


Mas o que é a linguagem simbólica? Qual é a característica essencial de algo que chamamos símbolo?


Para compreender o símbolo, é útil compará-lo com a linguagem científica. Embora essa última pareça, em muitos sentidos, oposta à visão simbólica ou mitológica da realidade, é justamente a linguagem científica que se tornou mais familiar e valorizada em nossa sociedade contemporânea.


Podemos conceituar a linguagem científica como uma linguagem-fato. Nela, os termos do discurso correspondem de maneira direta ou horizontal a fatos ou objetos do mundo. Quando afirmamos que a água, sob certas condições, ferve a 100°C, estamos significando exatamente isso, e nada mais. Trata-se de uma descrição precisa e objetiva de um fenômeno.


Outro exemplo seria falar sobre a queda do Império Romano. Quando utilizamos a linguagem científica ou histórica para nos referir a esse evento, estamos dizendo que, em determinado momento, um conjunto de acontecimentos envolvendo personagens e protagonistas ocorreu de forma literal. Não há outro sentido oculto ou mais profundo além da afirmação de que aquilo aconteceu como um fato histórico.


Por outro lado, com o mito, conseguimos captar verdades de maneira diferente, isto é, de forma indireta ou vertical. O mito opera em outro nível de significação. Por exemplo, ao considerarmos o Mito da Caverna, de Platão, não estamos lidando com um relato que pretende descrever algo que de fato aconteceu no tempo e no espaço. Ainda assim, ao ouvir ou ler o mito, captamos verdades profundas sobre a condição humana, sobre o conhecimento e a realidade, verdades essas que transcendem a narrativa em si.


Isso não significa que o mito seja falso ou ilusório. Pelo contrário, ele nos conecta a algo mais profundo, que vai além da mera aparência dos fatos. Em alguns casos, como na Guerra de Troia, a narrativa pode até conter elementos históricos, mas está envolta em uma camada simbólica que comunica verdades maiores sobre a honra, o destino, a guerra e a humanidade.


Por isso, o mito, ou a narrativa simbólica em geral, tem como característica essencial o apontar para algo além de si mesmo e dos elementos meramente materiais que o constituem. Um exemplo simples é uma placa de trânsito. Ela possui certas características materiais — como tamanho, cor e forma — que podemos descrever cientificamente. No entanto, sua realidade completa não se reduz a isso. Para ser realmente um símbolo, ela inclui um significado para além daquilo que materialmente enxergamos. Uma placa de "pare", por exemplo, não é apenas um objeto de metal pintado de vermelho, mas carrega um sentido que regula comportamentos, sinaliza uma ordem, e aponta para um sistema de leis e convenções que transcende sua materialidade. O símbolo, portanto, atua como um mediador, conectando o visível ao invisível, o tangível ao intangível, a matéria ao espírito.


Assim, a característica dos mitos, no sentido clássico, é serem narrativas (com ou sem um fundo factual) que incluem em seu significado um conteúdo de verdade, uma sabedoria, sobre o homem, sobre o mundo ou sobre Deus. Eles não se restringem ao nível material ou histórico, mas revelam verdades profundas que só podem ser compreendidas plenamente por meio da linguagem simbólica.




Humphrey Carpenter, na biografia que escreveu sobre Tolkien, reproduz um diálogo em que o autor de O Senhor dos Anéis ilustra essa concepção de mito como desvelamento e acesso simbólico à verdade:


"- Mas, disse Lewis, mitos são mentiras, mesmo que sejam mentiras envoltas em prata.

- Não, disse Tolkien, não são. [...] Você chama uma árvore de árvore e não pensa mais na palavra. Mas não era ‘árvore’ até que alguém lhe desse esse nome. Você chama uma estrela de estrela e diz que é só uma bola de matéria que se move numa trajetória matemática. Mas isso é meramente como você a vê. Nomeando e descrevendo as coisas desta maneira, você está apenas inventando seus próprios termos para elas. E assim como a fala é uma invenção sobre objetos e ideias, assim também o mito é uma invenção sobre a verdade.
Viemos de Deus e inevitavelmente os mitos que tecemos, apesar de conterem erros, refletem também um fragmento da verdadeira luz, da verdade eterna que está com Deus. De fato, apenas ao criar mitos, ao se tornar ‘subcriador’ e inventar histórias, é que o Homem pode se aproximar do estado de perfeição que conhecia antes da Queda. Nossos mitos podem ser mal orientados, mas se dirigem, ainda que vacilantes, para o porto verdadeiro, ao passo que o ‘progresso’ materialista conduz apenas a um enorme abismo e à Coroa de Ferro do poder do mal.”

2 Comments


cnegreli
Apr 20, 2023

Este estudante é uma amostra da civilização atual, que acredita que a ciência, e apenas ela nos levará ao Paraíso. A busca da Sabedoria não tem mais espaço, porque não é utilitarista. Não serve para nada. A nossa pobre atual civilização está caminhando para um lugar perigoso. Seremos seres tecnológicos, mas vazios e infelizes.

Like
Ivo Fernando da Costa
Ivo Fernando da Costa
Apr 20, 2023
Replying to

Verdade! Essa visão utilitarista é um ponto cego de nossa cultura e civilização atuais.

Like

Encontre outras postagens sobre:

Assine minha News Letter

Obrigado pelo envio!

  • Instagram
  • researchgate_icon_130843
  • academia-edu

©2025 por Ivo Fernando da Costa.

bottom of page